pelo escritor Mario Augusto Pool

NO NEVOEIRO

Tinha apenas quinze anos, mas já era considerado um bom velejador. Bem acima do nível de outros garotos veteranos, que não eram tão frequentes nas aulas de vela do clube. Ganhara meu primeiro barco aos dez. Era um optimist, um barco pequeno, de madeira e proa chata, ideal para iniciantes. Meu pai, também velejador, sempre frequente nos eventos de vela e nas regatas em que ele tanto gostava de competir pelo nosso clube, dera-me de presente. Como pai, ele sabia que poderia significar um futuro para mim. Porém, esse era desejo apenas seu. Num esporte como esse, só tem futuro quem o enxerga com os próprios olhos. E esse não era o meu caso.

Mesmo assim, morar perto do lago Guaíba fora um estímulo. Cresci brincando nas areias grossas e sujas da praia de Ipanema. Estava sempre próximo da água. Elas já não eram mais tão próprias para banho, como tinham sido em outras épocas, mas o sentimento de liberdade e de contato com todo aquele espaço tranquilizava a criança agitada que diziam que eu era. O Guaíba me trazia uma sensação de indescritível prazer. 

Naquela manhã, ainda não eram sete horas, o sol apenas começava a nascer. Por que estava ali tão cedo? Talvez porque fosse uma manhã fria de sexta-feira, um dia atípico para velejar. Como era final do inverno, poucos velejadores estariam no lago. Acho que eu buscava isto mesmo: privacidade e um clima desafiador. Em pouco tempo, o inverno iria embora e a temporada das regatas de primavera estaria iniciando. 

Da Argentina ao nordeste do Brasil, muitas competições estavam programadas. Embora soubesse que não passaria a vida velejando, para mim, vencê-las fazia mais sentido do que meramente participar. Queria estar bem-preparado. Os garotos uruguaios eram os melhores. Muito dedicados e acostumados com as águas frias do seu país, para eles, tempo ruim era uma rotina. Para ser um bom velejador, é preciso saber dominar a embarcação em situações difíceis, com muita técnica, principalmente quando o clima é adverso. Tal como estava naquela manhã.

Meu veleiro era um monotipo da classe laser, um barco olímpico, um dos mais populares do mundo. Batizei-o com o nome de “Ozzy”, em homenagem ao Black Sabbath. Isso fez com que meu laser fosse muito popular nas regatas e competições. Era um barco seguro e veloz, construído em fibra de vidro, com quatro metros e trinta de comprimento, e pesando apenas cinquenta e seis quilos de deslocamento. Muito prático e ideal para o meu tamanho e peso.

Se eu conseguisse completar o treino daquela manhã nos tempos previstos, teria a certeza do meu domínio sobre a embarcação. Eu conhecia a posição e o funcionamento das vinte e oito peças da estrutura principal de um laser, sabia manuseá-las até com os olhos vendados. Foram muitas lições obrigatórias aprendidas nas aulas teóricas. Conhecimentos fundamentais para a segurança do velejador. Até porque nesta classe se veleja sozinho, e ficar à deriva, sem o controle do barco é uma situação de alto risco. Nem mesmo os mais experientes desejam passar por um momento desses.

Montei o velame e me certifiquei de que todos os encaixes estavam funcionando e nos seus lugares corretos. Empurrei o berço até a beira da água – o berço é uma espécie de carrinho, um reboque, onde o barco descansa quando não está em uso – e fui me arrumar. Corri para o vestiário. Tinha de colocar o long de neoprene. Com certeza, era o melhor traje para um dia de frio nas águas do Guaíba.

Pés descalços, luvas de meio corte nas mãos, long de neoprene cobrindo todo o corpo, eu estava pronto para partir. Mesmo sabendo que meus pés iriam congelar, velejava descalço. Gostava de tocar o cockpit do barco. Acostumado desde pequeno, isso me dava mais firmeza nos movimentos. Acho que, aos quinze anos, o frio acaba sendo um detalhe, pois a adrenalina de comandar o barco o tempo todo e retornar com ele no menor tempo possível faziam com que qualquer mal-estar do inverno passasse despercebido.

Eu sempre acreditei que, em alguns momentos da vida, eventos especiais acontecem e mudam o rumo de certas coisas. O fato de velejar desacompanhado naquela manhã poria à prova algumas descrenças minhas. Hoje sei que, quando pensamos estar perdidos e na solidão, talvez nem sempre estejamos completamente sozinhos.

Entrei na sala de navegação do clube e entreguei para o imediato de plantão um plano de navegação – na verdade, um pequeno mapa contendo os detalhes do trajeto que eu iria realizar. Apontei os tempos previstos e a rota de retorno. Era um procedimento obrigatório para quem faria a rota desacompanhado. Em caso de acidente ou desaparecimento, o plano, combinado com a análise da direção e da velocidade dos ventos, do horário da saída, da posição das correntes e das ondulações, tornaria possível o resgate. 

As chances de encontrar um velejador perdido no Guaíba eram sempre boas. Por se tratar de um lago, os procedimentos eram quase sempre infalíveis. Já tinha ouvido muitas histórias, todas acabadas com finais felizes.

- Olá, Edson, tudo bem? Este é o meu plano de navegação para hoje. 

- Olá, Raul. Me deixa ver! Hum! Vai para o sul com este vento nordeste? – questionou o operador.

- Yep! Respondi. Chego de volta ao meio dia.

- Cinco horas até a entrada da Lagoa? – ele voltou a questionar. – Já pensou na volta? Você vai ter contravento! – concluiu, olhando firme para mim.

- Preciso tentar! Acho que tenho uma boa chance. Não acha? – devolvi a pergunta.

- Sei não! Vento nordeste no inverno tem muita chance de nevoeiro, você sabe!

- Sim, mas preciso melhorar meu tempo. Meus amigos castelhanos fazem isso o tempo todo. Vou me cuidar! Abraço, Edson, e até daqui a pouco. – me despedi e segui em direção à rampa de zarpagem.

- Bons ventos! E se cuida! – ele completou, com notável preocupação.

Naquela manhã, eu queria uma marca mais ousada. Seriam sessenta e seis quilômetros entre ida e volta em apenas cinco horas. Partindo do Clube Veleiros, iria até a ilha Chico Manoel, distante uns seis quilômetros do ponto de partida, e de lá seguiria até a ponta de Itapuã, fazendo um contorno na entrada da lagoa dos Patos e retornando pelo mesmo trajeto. Se conseguisse essa marca, estaria bem à frente dos meus colegas.

Com a ajuda do marinheiro do clube, deslizei o berço rampa abaixo até ficar submerso e liberar o “Ozzy” para flutuar. Rapidamente subi a bordo, fixando a cabeça do leme na fêmea de popa e assumi o controle do veleiro. Vela estendida e cabos esticados, rapidamente, “Ozzy” aprumou em direção à saída do farol. Contornei os molhes do clube a bombordo e manobrei rumo ao canal, a parte mais funda do lago Guaíba.

Com os pés presos à alça de escora, uma mão no leme e a outra controlando as amarras da retranca, ganhei velocidade e aproveitei o vento nordeste, raro no inverno, mas sempre bom para quem deseja ir rápido para o sul. O objetivo teria de ser alcançado: apenas cinco horas para ir e voltar.

Aproveitando o vento a favor, fui me afastando cada vez mais da costa e cheguei ao centro do canal em poucos minutos. Uma hora após a partida, já estava circundando a ilha Chico Manoel, última ilha antes da entrada para a Lagoa dos Patos. Mais uma hora e atravessava o estreito com o continente. Naquele momento, a Lagoa dos Patos surgiu a minha frente com toda a sua imensidão de águas tranquilas. Um mar de águas doces, calmas, mas de correntes perigosas.

Aproei o barco para o centro do canal e, aproveitando o vento forte que vinha pelas minhas costas, acelerei o máximo. Prendi meus pés firmes na alça de escora e joguei todo o peso do corpo para fora do barco. Sentia as ondas batendo em minhas costas e a pressão do vento inflando a vela do “Ozzy”. O barco deu um salto para frente, e o casco firme e aproado desenvolveu velocidade cortando as águas do Guaíba. Naquela imensidão aquática, eu era apenas um pequeno ponto no horizonte. 

Com exatamente duas horas de navegação, cheguei ao ponto de retorno. Fazer o caminho de volta tendo o vento nordeste a contravento me atrasaria em uma hora. Por isso, eu teria de ir bordejando, ou seja, conduzindo o barco em zigue-zague.

Soltei o cabo da retranca e puxei o leme para boreste, forçando ao máximo o barco para contornar e iniciar o trajeto de retorno ao clube. Soltei o meu pé esquerdo da alça de escora e torci o corpo para a direita, tentando pular para o lado oposto, completando uma manobra de inversão. Rapidamente, o “Ozzy” começou a inclinar e a responder à manobra de 180º. Porém, foi neste momento que uma rajada de vento muito forte empurrou a vela na minha direção e jogou a retranca contra mim num movimento rápido e brusco. Não consegui esquivar. A retranca da vela bateu com muita força na minha cabeça. Fui jogado contra o cockpit do barco e lá fiquei, caído, desacordado.

Com um solavanco enorme e um barulho forte vindo de baixo do cockpit, a proa afundou repentinamente, frenando o barco e elevando a popa para fora da água. Meu corpo foi arremessado de um lado para o outro. Recobrei os sentidos. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, abri os olhos e senti uma dor imensa na nuca.

Ainda atordoado, tentei ficar de joelhos; a dor continuava. Tudo rodava, incluindo o barco. Olhei para a água, vi os pedaços da quilha boiando e, ao lado, um enorme tronco de árvore, praticamente submerso.

- Puta merda! O que tá acontecendo? – falei em voz alta. 

Tentei lembrar o que fazia ali. Alguns flashes me vinham à memória. Que eu estava velejando eu lembrava, mas onde? Refleti um instante e percebi que o barco estava completamente sem rumo. Cabos, ferragens e a retranca estavam soltos e balançando ao vento. Levantei, cambaleando, e agarrei todos de uma só vez. Dando um abraço gigante, prendi cada coisa em seu lugar e consegui estabilizar o barco. Voltei a sentar.

- Que merda! – exclamei. – O que aconteceu? – perguntava a mim mesmo, como se eu pudesse responder com precisão. 

Sabia que o tronco de árvore havia avariado a quilha do barco. No mais, não me lembrava de muita coisa. Naquele instante, percebi que havia mais um problema além do acidente. Eu estava envolto por um denso nevoeiro. Não conseguía enxergar nada além de uns vinte metros de distância em qualquer direção. Para um velejador, um nevoeiro dessa magnitude é algo apavorante. Essa não é uma distância segura para manobras, principalmente de emergência, como a de desviar de um navio vindo pelo canal.

Estava perdido. Não fazia a menor ideia de onde estava. Olhei o relógio, e outra surpresa: haviam se passado mais de seis horas. Eram três da tarde. Eu havia ficado desmaiado todo aquele tempo. Apavorado, entendi que a situação era bem mais séria do que imaginava. 

- Três horas? Não pode ser! – gritei. – Eu deveria ter chegado em casa ao meio dia! Mas que droga! O que aconteceu? – voltei a me perguntar.

De fato, eu ficara desacordado por mais de seis horas, e o pior era que eu poderia estar em qualquer lugar da Lagoa dos Patos, muito longe do meu plano de navegação. Estava certo de que já havia buscas. Estavam a minha procura, com certeza. O retorno, marcado para o meio dia, já havia ficado para trás hábastante tempo. 

Sem bússola, navegar naquelas condições só poderia piorar as coisas. Não havia referência para seguir, meu barco com uma quilha quebrada não teria estabilidade para se manter flutuando. Caso acontecesse um vento mais forte, iria virar. Sem contar o perigo de ser abalroado por uma balsa ou um navio vindo pelo canal. Era uma situação difícil, que exigia autocontrole. Pânico, nem pensar. Caso contrário, poderia morrer.

Mantive-me calmo e atento às chances. Alguma oportunidade poderia surgir e ajudar no meu resgate. Eu precisava contar com isso. As lições de sobrevivência das aulas do professor Mauro surgiram imediatamente em voz alta na minha cabeça lesionada: “Fiquem parados, em local seguro, baixem a vela e aguardem o resgate”. A única questão era saber se onde eu estava era um local seguro.

Com muita fome e flutuando ao sabor das correntes, abri meu bornal e comi o único lanche que havia levado. Enquanto comia, olhei para o meu pé direito e vi um pequeno corte ensanguentado, contornado por uma marca roxa, larga, atravessando de um lado a outro a parte de cima do pé. Comecei a entender o que podia ter acontecido. Quando me virei para iniciar a bordejar, meu pé ficou preso, impedindo que eu desviasse o resto do corpo da retranca da vela. O lado esquerdo da minha cabeça deve ter ficado bem na altura do eixo da retranca. Quando ela virou, bateu com força antes mesmo que eu pudesse saltar para o outro lado. 

Mas o acidente já estava feito. Minha preocupação era com o frio. Meu corpo congelava, e a noite chegaria rápido. Em três horas estaria tudo escuro. Enrolei o corpo com a capa da vela e fiquei em silêncio, esperando e ouvindo atentamente qualquer sinal de aproximação.

Naquele momento, eu rezei. Pedi a Deus que pudesse olhar para baixo e ver como poderia me ajudar. Não era afeito à religião. Raramente eu ia a uma missa ou rezava, mas, naquele momento, como todo sujeito que está amedrontado e com o fantasma da morte rondando, rezar poderia ser uma alternativa. Vergonhosamente, rezei – digo vergonhosamente porque é somente na dificuldade que me lembro de pedir coisas em oração. Porém, como não sei de nenhum amigo que tenha rezado antes de transar com a menina mais cobiçada da escola, acredito que, para os momentos de prazer, Deus sempre fica de fora mesmo.

Por um momento, pensei ter ouvido o som de uma vela flanejando, mas o desejo de encontrar uma saída e a esperança de que o nevoeiro desaparecesse eram tão fortes que aquele som, com certeza, era um delírio. Encolhido no cockipt, fiquei quieto, pensativo, e tentando controlar o medo que crescia cada vez mais. Porém, novamente, o som de uma vela ao vento, bem próximo, era audível e claro. Levantei a cabeça e, mais uma vez, escutei. Estava perto, era uma embarcação se aproximando, um veleiro pequeno. Escutava o movimento da água sendo cortada pela proa. Gritei. Com toda a força. E silenciei, em seguida, na esperança de ouvir o retorno.

- Olá! Socorro! Estou à deriva! Tem alguém aí?

Uma pausa. Nenhuma voz. Porém, o som da embarcação se aproximando ficava cada vez mais alto.

- Olá! Aqui é o veleiro “Ozzy”, do clube Veleiros do Sul! Pode me ouvir? 

Nada de resposta. Percebi que o encontro comigo seria inevitável. Ao fundo, consegui vislumbrar um vulto. Estava a vinte metros da popa. Era também um monotipo. Comecei a acenar e continuei gritando. Cada vez mais, as linhas do casco e da vela branca iam ficando nítidas. Minha felicidade era enorme, mal continha o riso solto e a sensação de alívio. Estava salvo e seria mais uma história de resgate bem-sucedido. 

Aos poucos, o veleiro foi se aproximando e ficou próximo de mim cerca de dez metros. Consegui ver claramente a embarcação. Era um barco de madeira, um modelo que eu nunca havia visto antes. Dava para perceber que era antigo, mas muito bem-cuidado. A retranca, de grande dimensão, chegava até o painel de popa; contudo, era um pouco menor que o mastro que esticava a vela. O leme era apoiado no painel da popa e tinha uma caixa na parte de cima onde era encaixada a quilha. Era, na verdade, uma bulina, uma quilha retrátil. A parte inferior era arredondada. 

Era um veleiro lindo, um clássico, de madeira envernizada e cockpit branco. Na vela, não havia nenhuma inscrição; apenas uma estrela de cinco pontas bem no alto, perto da cruzeta do mastro. Também não constava a categoria do barco. No casco superior, apenas as iniciais E.S.

O pequeno veleiro passou por mim e começou a contornar. Percebi que estava ali para me resgatar. Provavelmente, fora enviado pelo clube ou por alguma marina próxima de onde eu me encontrava. Ao completar uma volta em torno do “Ozzy”, pude ver o velejador. Era também um garoto, não devia ter mais do que os mesmos quinze anos que eu e usava camisa e calças brancas. Usava um boné, também branco, parecido com um quepe, como se fosse um chapéu amassado. Eu já tinha visto algo parecido em uma festa na colônia onde havia uma tenda vendendo muitos daqueles. 

- E aí, meo! – gritei, acenando. – Beleza? Estou sem quilha e com poucas condições de navegar. 

O garoto sorriu e acenou com uma das mãos, mas não falou comigo. 

- Você pode me rebocar? – perguntei. – Ou pode me guiar? Mas precisa ir devagar! 

Novamente, ele voltou a sorrir e fez um gesto de mão, conhecido como um sinal de resgate entre velejadores e marinheiros. Com a palma da mão estendida, movimentou três vezes o braço para o alto e para baixo, querendo dizer que eu deveria içar a vela. Em seguida, movimentou o braço para frente e apontou em uma direção. Ele iria me guiar para lá e eu deveria segui-lo devagar.

- Ok, meo! – gritei. – Entendi. Você vai me guiar para bombordo. – respondi. 

Imediatamente, ele fez um sinal com o polegar para cima, confirmando a mensagem. Achei que devia me apresentar:

- Meu nome é Raul, sou do Veleiros do Sul, de Porto Alegre. E você? 

Mais uma vez ele sorriu e não disse uma palavra. Devia ser surdo. Ou mudo, ou algo assim. Como minha vontade de sair dali era grande, pouco importava, naquela altura dos acontecimentos, a deficiência do sujeito. Depois eu teria tempo para conhecê-lo melhor e agradecer.

Estiquei o cabo da vela e aprumei a retranca para começar a me movimentar. Sentei ao centro do cockipt para equilibrar o “Ozzy” e evitar uma virada. Sem quilha, as chances de uma virada eram grandes e não poderia perder esse tempo. Muito menos perder de vista o meu resgate. 

Partimos, seguindo lentamente. Por todo o trajeto, a distância dos nossos barcos não ultrapassava os dez metros. O nevoeiro continuava denso, e aquela distância era a margem de segurança para não o perder de vista. O mais estranho de tudo era que aquele monotipo também parecia não possuir instrumentos de navegação. Para onde estávamos indo também era outro mistério. Mas eu percebia que o garoto era muito experiente. Navegava com segurança e sempre atento, mantinha a cabeça erguida e olhava em um horizonte imaginário, invisível, naquele momento, mas que ele sabia que estava lá.

Duas horas haviam se passado. A penumbra da noite já estava presente, o nevoeiro continuava a cobrir todos os espaços, e a única coisa visível era o meu novo amigo e o seu barco, rumando ao desconhecido. Repentinamente, o garoto virou a noventa graus na minha frente e começou a circundar o “Ozzy”, fazendo uma volta completa ao meu redor. Acenou com o braço direito e apontou para algum lugar perdido na penumbra daquele nevoeiro. Acompanhei com os olhos a direção indicada e surpreendentemente pude distinguir uma claridade ao fundo. Era uma luz de navegação e estava fixa em algum ponto distante uns trinta ou quarenta metros dali. Dei um grito de alívio e sorri muito para o meu amigo. Ele correspondeu ao sorriso e fez um sinal para que eu seguisse em frente. Virei o cabo do leme a boreste e rumei em direção à luz. Queria muito chegar à terra e ligar para os meus pais. Com certeza, estavam apavorados.

Mantendo o ritmo do vento fraco, fui aos poucos me aproximando daquela marina. A luz que víamos ao longe era a de um farol de barra, mostrando o caminho de uma enseada e, logo em seguida, um trapiche com muitos veleiros ancorados. Não havia ninguém nos esperando, mas não importava, era um porto para ancorar. 

Encostei-me ao trapiche e puxei uma amarra para prender o “Ozzy”. Estava com muito frio. Segurei no corrimão de acesso, coloquei meu pé ferido no degrau e dei o primeiro passo. Rapidamente, estava a salvo. Lembrei-me de olhar para o céu e agradecer a Deus. Sabia que não era merecedor, mas o meu pedido havia sido atendido.

Com dois passos, cheguei até um barracão para barcos. Havia uma porta aberta com caixilhos de metal. O nevoeiro cobria os prédios, os barcos ancorados e o longo trapiche que conduzia à sede do lugar. Naquele momento, lembrei-me do meu salvador. Olhei para a lagoa, e lá estava ele, com o seu barco, acenando para mim e, mais uma vez, sorrindo. Acenei de volta e vi quando o garoto voltou a sentar no cockpit, esticou a retranca e manobrou o barco para seguir em frente. 

Barcos pequenos devem sempre ser retirados da água. Em temporais, eles são frágeis, podem ser destruídos facilmente, caso venham a bater nas colunas do trapiche. O garoto, certamente, estava indo guardar o seu barco, visto que ele era muito bem-cuidado.

Ao me virar, percebi um vulto vindo ao meu encontro. Era um homem, um homem velho e com barba. Empunhava uma pequena lanterna e vestia um agasalho amarelo, uma jaqueta marítima.

- Olá menino! Tudo bem com você? Já está tarde e perigoso para ficar velejando com este tempo. – comentou o homem com um olhar desconfiado e curioso para saber quem eu era e o que fazia ali, numa noite daquelas.

- Pois é, senhor, tudo bem? Eu sou o Raul e fiquei sem rumo. Levei uma pancada na cabeça e acho que desmaiei. Eu saí do Veleiros do Sul, às oito horas da manhã, e, quando acordei, já eram três horas da tarde! – expliquei, rapidamente. 

O homem continuava parado, ouvindo, e mais desconfiado ainda. Aquela história não parecia muito apropriada. Podia ser um alucinado querendo contar vantagem ou escondendo algo que fizera de errado.

- Acho que você realmente bateu a cabeça! – exclamou o homem, cofiando a barba e me olhando dos pés até o último fio de cabelo. – Você disse que saiu do Clube Veleiros do Sul, de Porto Alegre? – perguntou, calmamente.

- Sim, eu sou velejador de lá. Estava treinando quando tudo isso aconteceu. – certifiquei, mais uma vez, a minha versão da história.

- E você tem ideia de onde está?

- Pra dizer a verdade, não. Mas eu fui resgatado por outro garoto; ele deve ser daqui. Ele me encontrou há umas duas horas e me guiou pela lagoa. Depois, avistamos o farol de navegação. Ele está lá atrás, foi guardar o seu veleiro. 

Senti-me em um inquérito. Porém, como eu estava sendo acolhido, deveria ter paciência e responder calmamente às perguntas do homem.

- Bem, meu jovem! – exclamou. – Não sei muito bem como lhe dizer, mas você está em Tapes! – respondeu firmemente. – Aqui é o Clube Náutico de Tapes, e estamos fechados desde o fim da manhã quando este nevoeiro invadiu a lagoa.

- Tapes? – indaguei com muito espanto. – Mas isto é muito distante; já estive aqui antes com o meu pai – completei.

- Sim. – reafirmou o homem. – Para chegar aqui pela lagoa são mais de 122 km. Se a sua história for verdadeira, você foi arrastado por uma corrente muito forte. Se não tivesse parado aqui, com certeza, você iria morrer de frio ou afogado no canal. Ninguém resiste a um frio deste ficando tanto tempo à deriva! – concluiu espantado o homem de barba. – Venha, você precisa de um banho quente e de roupas secas. Meu nome é Jorge e eu sou o zelador aqui do clube. Eu moro aqui. Vamos até a minha casa; minha esposa irá cuidar de você. – encerrou ali aquela conversa no frio.

Eu não sabia o que dizer; estava assustado. Percebia que a encrenca em que eu havia me metido era muito mais séria e que poderia ter morrido se não fosse aquele garoto. Mesmo assim, chegar a Tapes fora um milagre, disso eu tinha certeza. A cidade fica protegida por uma grande baía, comprida, formada por um braço enorme de terra que, ao longo do tempo, cresceu em direção à Lagoa dos Patos e cobriu uma boa extensão da água. Contornar o braço de areia e localizar a entrada da baía de Tapes com aquelas condições de clima seria algo impossível. Somente com a ajuda do meu amigo desconhecido eu havia podido chegar até ali e atracar com segurança. Realmente ele era o melhor velejador que eu já conhecera.

Na casa do zelador, pude tirar aquela roupa apertada de neoprene e relaxar os meus músculos. Fiquei um bom tempo em baixo daquele chuveiro quente deixando que a água devolvesse o calor ao meu corpo e esquentasse os meus pés, praticamente roxos de frio. Vesti algumas roupas que me foram emprestadas, roupas velhas, mas limpas e cheirosas e, sobretudo, quentes. A esposa do zelador Jorge me colocou sentado frente a uma mesa, ao lado de um fogão à lenha que esquentava todo o ambiente. Serviu-me uma sopa quente, muito saborosa. Eu detesto sopas, mas aquela era a melhor refeição que eu já havia comido. 

Gentilmente, o zelador emprestou o seu telefone e pude ligar para os meus pais. Eles mal puderam acreditar naquela história completamente incrível. Vários barcos do clube Veleiros e de outras partes estavam a minha procura; foi um alívio para todos saberem que eu estava vivo e que passava bem. As buscas foram suspensas imediatamente. Meus pais estavam a caminho de Tapes. Iria ser resgatado pela segunda vez no mesmo dia, mas, desta vez, por terra. A sensação era de muita felicidade. Como havia dito antes, seria mais um final feliz de resgate na Lagoa dos Patos.

Em uma das paredes da confortável casa de madeira do zelador, havia algumas fotos penduradas por suas molduras. Eram fotos em preto e branco, de diferentes épocas do Clube de Vela Tapense. Parei diante de uma velha fotografia emoldurada. Estava manchada, mas suficientemente nítida através do vidro que a protegia. Mostrava um garoto a bordo de um veleiro monotipo, do mesmo modelo daquele que havia me resgatado. 

- Quem é o velejador, sr. Jorge?

- Que velejador?

Apontei para a fotografia entre as outras.

- Ah, sim. É uma fotografia do inglesinho Mark, sobrinho de um dos fundadores aqui do clube.

- Mark? – disse eu, aproximando o rosto para perto da fotografia a fim de ver mais detalhes. 

- Sim, Mark Spencer! – completou. – Era um bom menino inglês, não falava a nossa língua. Eventualmente vinha visitar o seu tio Eddie, um dos capitães que dragaram o canal da Lagoa dos Patos e, depois, acabou fundando este clube. Este barco pertencia ao Eddie, mas, sempre que vinha aqui, Mark velejava nele. O tempo todo, o tempo todo! – repetiu o velho Jorge.

Algumas coisas começavam a fazer sentido. As letras na proa do barco, E.S., deveriam ser de Eddie Spencer, o dono do barco, e isso confirmava a existência do meu amigo e salvador. Ele realmente era um velejador local e pertencia àquele clube.

- É um bom velejador com certeza! – murmurei, pensando no que havia feito por mim naquela tarde.

- Muito bom velejador – disse o velho Jorge, olhando nos meus olhos. – Um menino de ouro, sempre disposto a ajudar. Um marinheirinho com muita experiência. Usava o velho monotipo do Eddie com destreza e boas manobras. – completou Jorge. – Lembro de certa ocasião, em um dia como o de hoje, um nevoeiro muito denso. Nós recebemos pelo rádio um pedido de socorro. – começou a contar Jorge, com os olhos fixos na fotografia. – O chamado vinha de um barco de pescadores que estava afundando a algumas milhas daqui. Na época, tínhamos poucos recursos e não existiam equipamentos para navegar à noite no meio daquele clima. – Jorge olhou para mim. – Estávamos apenas acompanhando pelo rádio o pedido de socorro e tentando avisar a marinha sobre o chamado. Mas Mark não se convenceu. Quando percebemos, o menino não estava mais conosco. Zarpou com o veleiro do seu tio e foi ao encontro do pesqueiro. 

- Sério? – questionei, agitando a cabeça.

- Sim. – afirmou. – Ele foi à busca do pesqueiro. Algumas horas depois, retornou com quatro homens a bordo, todos salvos. Era um menino especial. Diziam que tinha sentidos apurados, que percebia o perigo e pressentia a agonia das pessoas presas na água. Tinha um instinto para encontrar e ajudar as pessoas. – terminou de contar com um sorriso no rosto e colocou a mão em meu ombro.

- Legal! – murmurei. – Muito legal. Pelo visto, ele continua ainda ajudando os perdidos. – disse e sorri para Jorge, também colocando minha mão no seu ombro. – Você poderia chamar o Mark? – perguntei. – Quero muito agradecer e conhecê-lo pessoalmente. Também devo a minha vida a ele. – afirmei olhando seriamente nos olhos de Jorge.

O velho Jorge ficou imóvel. Olhava fixamente para mim, e percebi que os seus olhos ficaram marejados. Por alguns instantes, ficamos apenas nos olhando enquanto o zelador calmamente balançava a cabeça. Era um gesto lento, mas indicava que ele estava compreendendo o que havia acontecido. Percebi então que a minha história e tudo o que eu havia contado passava a fazer sentido para ele. Por algum motivo, as minhas palavras o haviam deixado muito emocionado.

- Infelizmente, isso não é possível. – disse Jorge, respondendo a minha pergunta. – Mark saiu para socorrer um velejador, um garoto aqui do clube, que, também, como você, havia se perdido em um desses nevoeiros da Lagoa dos Patos. 

Jorge respirou fundo e continuou. 

- Mark naufragou em algum ponto do canal e nunca mais foi encontrado. Isso aconteceu sessenta anos atrás. 

Eu fiquei pasmo com o que Jorge me contara. Olhei-o fixamente. O coração, acelerado, deixava-me cada vez mais tenso.

O velho zelador finalizou:

- O garoto que ele havia ido salvar era... eu.
Naquele momento, Jorge me abraçou, e ali ficamos. Mudos e emocionados. Apenas pensando no milagre, e agradecendo. Pela vida e pela experiência no denso nevoeiro. 

Para, Frederick Forsyth (O PASTOR)

© 2018 by Amiga Designer. Proudly created with WIX.COM